Foto: Vinicius Becker (Diário)
As vendas de veículos elétricos avançam em ritmo acelerado. Pelas ruas de Santa Maria, o silêncio dos motores movidos a bateria já é uma realidade frequente, mas a compra destes veículos tem gerado dor de cabeça para instalar carregadores desses veículos, especialmente dentro de condomínios. A falta de regulamentação específica, o risco de sobrecarga nas redes antigas e as exigências do Corpo de Bombeiros colocam moradores e síndicos em discussões frequentes.
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Salto nos elétricos

Dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-RS) ajudam a entender a velocidade da mudança na cidade. O foco principal está nos veículos 100% elétricos (classificados como elétricos de fonte externa), que dependem exclusivamente de cabos e carregadores para rodar. Como os que estamos acostumados a ver nas ruas (foto acima).
No primeiro trimestre de 2024, Santa Maria registrou apenas 4 emplacamentos desse tipo de veículo. No mesmo período de 2025, o número saltou para 57. Já entre janeiro e março de 2026, foram 62 novos registros. Considerando todas as tecnologias que envolvem algum nível de eletrificação (como os modelos híbridos), a cidade somou 498 registros ao longo de todo o ano de 2025. Já neste ano, nos primeiros quatro meses, já são 149 novos veículos.
“Não é como ligar um notebook”
Para impulsionar o mercado, algumas concessionárias transmitem a ideia de que o carregamento residencial não é difícil. A advogada Helen Tondo, especialista em Direito Imobiliário e Condominial, pontua que essa prática preocupa, pois as revendas costumam repassar a sensação de que o processo é livre de riscos, comparando a recarga do carro à de um simples computador ou notebook na tomada. Essa falsa facilidade acaba estimulando improvisos perigosos por parte dos proprietários.
A especialista relembra o caso ocorrido na Rua Dr. Bozano, apontado como o primeiro incêndio envolvendo um carro elétrico no Brasil. O fogo não começou na bateria do automóvel, mas na estrutura inadequada usada para puxar a energia.
– Pegou fogo na extensão que foi utilizada. O "T" que ele usou, a extensão que ele estava usando, o engate sobrecarregou e aí pegou fogo no estofamento do veículo – relata a advogada.
Helen alerta ainda que, em casos de sinistros provocados por instalações irregulares, as seguradoras podem se recusar a pagar a indenização do bem.
Do ponto de vista técnico, a infraestrutura dos prédios de Santa Maria não foi projetada para essa demanda. A professora titular do curso de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e pesquisadora de eletromobilidade, Luciane Silva Neves, explica a diferença na prática.
– É como se você fosse instalar um chuveiro e quisesse usar o mesmo fio que alimenta uma lâmpada. Não pode. É preciso um condutor mais grosso e um disjuntor específico, além de um responsável técnico que avalie a capacidade do transformador do edifício – detalha a professora.
Para resolver a divisão da conta de luz, a engenheira orienta que o padrão é a instalação de um medidor individual no circuito de cada vaga. O maior problema, no entanto, é o risco gerado por improvisos, como o uso de extensões comuns ou adaptadores de tomada, que causam aquecimento nos fios e geram risco direto de incêndio na estrutura do prédio.
Rigor dos Bombeiros

Para os moradores de condomínios, principalmente em prédios antigos e com garagens subterrâneas, a liberação para instalar um ponto de recarga está cada vez mais difícil. A advogada afirma que os síndicos não possuem segurança jurídica para autorizar as obras.
A principal restrição atual tem como base o Informativo Técnico nº 001/2025, emitido pelo Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul (CBMRS) em outubro do ano passado. O documento recomenda que as recargas sejam feitas em áreas externas. Para garagens fechadas, o texto sugere medidas como:
- Distanciamento mínimo de 5 metros entre os veículos.
- Instalação de chuveiros automáticos (sprinklers).
- Sistemas de detecção de incêndio e exaustão mecânica.
- Aditivos na reserva de água para combate ao fogo prolongado.
– É praticamente impossível para um prédio antigo, como os do centro da cidade, dispor de 5 metros entre um carro e outro ou instalar um reservatório de água exclusivo para sprinklers. Se o síndico autoriza a instalação, ele altera o Plano de Prevenção e Proteção Contra Incêndios (PPCI) do prédio. Em caso de incêndio, a seguradora não paga a indenização e o síndico responde civil e criminalmente. Ele pode ir preso – pontua a advogada.
Além das regras de segurança, a legislação exige que alterações em áreas de uso comum tenham a aprovação de 2/3 dos proprietários em assembleia. A alternativa viável tem sido encontrada apenas em condomínios horizontais ou prédios com amplas áreas abertas, onde moradores custeiam, de forma particular, projetos para instalar totens de recarga que custam entre R$35 mil e R$50 mil. No entanto, em Santa Maria ainda não há nenhum instalado em condomínios.
Economia
A economia gerada pela eletricidade em substituição à gasolina tem atraído motoristas de aplicativos, que rodam o dia inteiro e chegam em casa com a bateria quase zerada. Nesses casos, a recarga residencial em condomínios não é suficiente.
A professora Luciane Neves explica que os carregadores permitidos para instalação em condomínios possuem potência padrão de 7 kW. Para um veículo de uso rotineiro, que gasta cerca de 10% da bateria por dia, o carregamento noturno é rápido e suficiente. Porém, para recarregar uma bateria vazia inteira a 7 kW, o processo leva de 5 a 6 horas.
Condomínios não possuem rede elétrica capaz de suportar carregadores rápidos (de 50 kW) para vários moradores ao mesmo tempo. A solução para quem precisa de agilidade são os eletropostos comerciais espalhados pela cidade, que operam em média tensão e contam com subestações próprias, capazes de recarregar a bateria em 20 a 30 minutos.